Num País tão pequeno como o nosso, às vezes é difícil distinguir o que realmente vale a pena daquilo que não merece sequer a nossa mais pequena atenção. Algumas pessoas que me têm escrito, dizem-me em confidência, que é difícil saber que grupos são sérios e quais aqueles que não o são. Em primeiro lugar temos de ter consciência daquilo que procuramos. Saber de forma clara, se nos apetece juntarmo-nos a um grupo já pré-estabelecido ou se queremos apenas ver o que se passa. A mera curiosidade cabe em eventos esporádicos como o Encontro Anual de Paganismo promovido pela PFI- Portugal, onde quem quer poderá contactar, ouvir e saber o que é de facto o Paganismo. Podem visitar o site desta organização para saberem datas, etc. Assistir a um evento destes não implica associação ao mesmo visto ser aberto a todos e é a melhor forma para curiosos ou praticantes que queiram contactar com pessoas idóneas.
O problema prende-se exactamente com isto. Quem é idóneo, quem é credenciado, quem é verdadeiro? Muitas das pessoas que me escrevem têm medo de fazer uma aproximação ou um contacto porque por vezes têm receio de não saber o suficiente ou de não saberem o que vão encontrar, embora tenham vontade. Que critérios se tem de aplicar a estas escolhas? Como saber se os sítios, eventos ou grupos são ou não liderados ou dirigidos por pessoas que são de facto praticantes verdadeiros do paganismo, seja qual for a sua tradição?
Isto é como tudo, tem de se perguntar. Perguntar não faz mal nenhum e as pessoas que se aproximam de uma organização pública têm o direito, antes de se juntar ao grupo, de perguntar e verificar se o grupo ou organização é de facto verdadeiro. Um dos sinais principais é verificar a idoneidade de quem os dirige. Quem está à frente desse grupo devem ser pessoas com experiência e com provas dadas, que sejam reconhecidas no meio pagão ou que estejam ligados a organizações internacionais que os reconhecem ou apoiam. Como não existe selo de garantia, tem de se perguntar. Exemplos de perguntas que se podem fazer são:
- Há quanto tempo o grupo/organização trabalha?
- Origens/procedência do mesmo
- Quem são os seus dirigentes? De onde vêm?
- Que tipo de trabalho fazem.
- Estão ligados a alguma organização Internacional? Qual?
1. Há quanto tempo o grupo/organização trabalha?
Esta será uma das formas de saber se o grupo tem eventos esporádicos, ou se mantém uma continuidade verdadeira e se a tem, peçam provas das suas actividades ou eventos. Só este ponto não chega para saber se o grupo/organização é ou não sério(a) mas pelo menos percebe-se se estão de forma séria e contínua no desenvolvimento das suas actividades.
2. Origem e procedência do mesmo.
No caso de uma organização, este ponto prende-se com o facto de saber de onde surgiu este grupo. Normalmente, as organizações idóneas tem uma origem bastante clara e verificável, através de datas e eventos precedentes.
3. Quem são os seus dirigentes e de onde vêm?
Este ponto é muito importante. Por vezes surgem grupos e/ou organizações que mantêm um certo anonimato quanto às origens dos seus dirigentes e este é um sinal de que provavelmente a origem dos seus dirigentes não é verificável. Todas as pessoas têm o direito de saber quem são os dirigentes e de onde vêm. Se estes são pessoas que tem alguma idoneidade verificável, tenho a certeza que não esconderão as suas origens.
4. Que tipo de trabalho fazem?
Este ponto verifica os objectivos do grupo/organização. Se estes objectivos não forem claros, e perfeitamente identificados então o grupo/organização não consegue provar o seu propósito, ficando à mercê de encontros esporádicos e objectivos mistos e confusos.
Os objectivos são importantes pois não só definem o grupo como grupo mas também o definem na acção e eficácia perante a comunidade.
5. Estão ligados a alguma organização Internacional? Qual?
Este ponto pode não se verificar pois o grupo pode ter a sua origem em Portugal e ser independente de qualquer outra organização exterior ao mesmo. No entanto, existem várias organizações internacionais que são idóneas e que ao associarem-se aos grupos, poderão verificar a honestidade dos mesmos. Exemplo disso são na Europa a Pagan Federation International e nos Estados Unidos a Covenant of the Goddess (duas organizações muito similares nos objectivos) bem como outras organizações ligadas a tradições específicas como é o exemplo da New Wiccan Church International ou o Temple of Nine Wells.
Seja qual for a associação entre os dois grupos, estas organizações internacionais, verificam, através da sua associação com o grupo, a idoneidade do mesmo.
Estes são alguns pontos que se deve ter em conta na escolha de organizações ou grupos aos quais nos desejamos associar. O grande problema nisto tudo em Portugal e até mesmo internacionalmente, é que não existem critérios de avaliação verificáveis os quais todos possam aplicar na verificação da seriedade das organizações. Estamos a falar de organizações pagãs, de grupos pagãos, um campo nu e perigoso sem ferramentas precisas de verificação. Espero que os pontos acima ajudem em alguma coisa.
Outro dos problemas prende-se em estabelecer critérios de escolha que possam verificar a seriedade de pequenos grupos pagãos ou até mesmo Covens que se dizem verdadeiros. Bom, penso que todos os pontos acima se poderão utilizar acrescentando mais alguns. Em primeiro lugar existem algumas organizações como por exemplo o Pagan Pride Day que pelas suas características não verificam a idoneidade dos seus dirigentes. Qualquer grupo pagão poderá organizar um Pagan Pride Day segundo as regras estabelecidas por esta organização, mas pela experiência que tenho em participar nestes eventos nos Estados Unidos, nem sempre os dirigentes são, digamos, idóneos ou credenciados pois esse ponto não é exigido nas regras de implementação de projectos. Entenda-se que o âmbito desta organização não faz isto por desleixo, mas por um motivo; deixar que qualquer grupo, em qualquer parte do mundo, possa organizar um Pagan Pride Day sem se prender a formalidades de acreditação, deixando aberta a porta para todo e qualquer pagão que assim o deseje. Isto é muito agradável se as pessoas que organizam este tipo de eventos forem sérias e experientes no que toca a este tipo de eventos. No entanto também faz com que exista uma disparidade muito grande entre eventos – uns muito bons e outros muito maus.
Outro problema também se verifica nos pequenos grupos (Covens) que se dizem praticantes verdadeiros e que de facto não o são. Aqui talvez cabe-me esclarecer o que entendo por uma pessoa(s) idónea(s). Terão de ser praticantes pagãos activos e experientes em que se possa verificar a sua experiência e proveniência. Alguns grupos são bastante fechados e o que se passa dentro destes não “transpira” para fora. Existe uma ideia errada, que, se está presente na discrição destes grupos, verifica a sua falsidade em contraste com grupos sérios e verdadeiros. Quando digo verdadeiros não me estou a referir a Linhagem ou Tradições. O grupo pode até ser experimental de adeptos sem iniciação ou qualquer tipo de tradição pré estabelecida, mas que tomam a sério a sua experiência.
Uma dos pontos que mais ouço falar, em termos de características de alguns grupos, é a ideia de que os mesmos se entregam a práticas orgiásticas. Isto é prova de que o grupo não é verdadeiro ou que aquilo que pratica não tem absolutamente nada a ver com os grupos verdadeiros e sérios que praticam ritos pagãos. Isto é norma comum a estes grupos falsos, talvez até comum demais. Nenhum grupo sério tem este tipo de abordagem. Um grupo pagão sério, verifica os Festivais Sazonais Pagãos, celebra a Natureza nos seus Ciclos Naturais, prestando homenagem à Grande Mãe e ao Seu Consorte.
O cuidado que se tem de ter nas escolhas de participação em grupos ou eventos prende-se com tudo isto. Portugal é um país pequeno e bastante ávido no que diz respeito ao paganismo. Por isso por vezes é difícil saber o que realmente é ou não sério e verdadeiro.
Espero sinceramente que este texto venha a servir de alerta àqueles que procuram um grupo/organização séria.
Karagan
texto de Karagan com revisão de Cynthia Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 3.0 Unported License
